Entre 2019 e 2025, ambulatórios de hepatologia em São Paulo, Recife e Porto Alegre registraram aumento médio de 41% nos encaminhamentos por esteatose hepática identificada em exames de imagem. O dado, compilado a partir de relatórios institucionais e entrevistas com coordenadores de serviços, reflete uma tendência nacional: a doença hepática gordurosa metabólica (MASLD, na nomenclatura atual) consolidou-se como problema de saúde pública de primeira ordem.
Prevalência e perfil dos pacientes
Estimativas baseadas em inquéritos populacionais e coortes clínicas sugerem que entre 30% e 37% dos adultos brasileiros apresentam algum grau de esteatose hepática. A concentração é maior em homens entre 40 e 60 anos, embora a incidência em mulheres na pós-menopausa tenha crescido de forma acentuada nos últimos cinco anos.
O perfil metabólico típico combina resistência insulínica, circunferência abdominal elevada e dislipidemia aterogênica. Cerca de 68% dos pacientes encaminhados a serviços terciários apresentam pelo menos dois componentes da síndrome metabólica, segundo levantamento conduzido em três centros de referência do Sudeste.
Diagnóstico e estadiamento
A ultrassonografia abdominal permanece como porta de entrada no diagnóstico, mas sua sensibilidade cai quando a infiltração gordurosa é inferior a 20%. Elastografia por transient elastography (FibroScan) e ressonância magnética com quantificação de gordura hepática (PDFF) ganharam espaço no estadiamento, embora a disponibilidade no SUS seja desigual entre estados.
Em Minas Gerais e no Paraná, filas para elastografia ultrapassam seis meses em alguns municípios. A consequência é o subestadiamento de fibrose em pacientes que permanecem em atenção primária sem acompanhamento especializado adequado.
O SUS e os gargalos de acesso
A incorporação de novos critérios de encaminhamento pela atenção básica — incluindo enzimas hepáticas persistentemente elevadas e achados de esteatose em exames de rotina — ampliou a demanda sem correspondente expansão de vagas em hepatologia. Profissionais de saúde da família relatam dificuldade em interpretar resultados de elastografia e em definir quando o encaminhamento é realmente necessário.
Programas de educação continuada em atenção primária, como os promovidos por sociedades médicas regionais, começam a endereçar essa lacuna. Ainda assim, a distância entre protocolos escritos e a prática cotidiana permanece significativa no interior do Nordeste e do Norte.
Perspectivas para 2026 e além
Pesquisadores consultados pelo Fígado em Foco apontam três frentes de atenção: intensificação da prevenção primária com foco em atividade física e redução de ultraprocessados; ampliação do acesso a biomarcadores não invasivos de fibrose; e integração de dados de atenção primária com registros de hepatologia para mapear a progressão da doença em tempo real.
Para o leitor clínico, a mensagem central é de vigilância: esteatose hepática não é condição benigna por definição. A identificação precoce de fibrose avançada e o manejo dos fatores de risco metabólico podem alterar substancialmente o prognóstico de uma parcela crescente da população brasileira.