A hepatite C crônica afeta estimados 700 mil brasileiros, embora especialistas alertem que o número real pode ser superior devido ao subdiagnóstico. Desde a incorporação universal dos antivirais de ação direta (DAAs) pelo SUS, as taxas de cura virológica sustentada superam 95% nos centros com acompanhamento adequado. O gargalo, cada vez mais evidente, deslocou-se da terapêutica para a identificação dos infectados.

Testagem: expansão e limitações

Em 2025, o Ministéda Saúde ampliou a oferta de testes rápidos para hepatite C em unidades básicas de saúde de 12 estados-piloto. A estratégia busca integrar a triagem a campanhas de testagem para HIV e sífilis, aproveitando a mesma população de risco. Os resultados preliminares são mistos: onde a capacitação de equipes foi consistente, a detecção de casos novos cresceu 28%. Onde a logística de confirmação por PCR falhou, pacientes com teste reagente perderam-se no sistema.

Populações privadas de liberdade, usuários de drogas injetáveis e profissionais de saúde expostos a acidentes perfurocortantes permanecem como grupos prioritários, mas a testagem universal em adultos acima de 45 anos — recomendada por algumas diretrizes internacionais — ainda não foi adotada de forma sistemática no Brasil.

Esquemas terapêuticos atuais

Os regimes baseados em sofosbuvir/velpatasvir continuam como primeira linha para a maioria dos genótipos. Casos com insuficiência renal avançada ou coinfecção HIV seguem protocolos específicos do PCDT. A duração padrão de oito a doze semanas simplificou o acompanhamento, mas exige confirmação de carga viral indetectável 12 semanas após o término do tratamento (SVR12).

Hepatologistas em centros de referência relatam aumento de consultas para avaliação de fibrose residual em pacientes curados, especialmente aqueles com cirrose estabelecida antes do tratamento. Esses pacientes mantêm risco de carcinoma hepatocelular e necessitam vigilância por imagem semestral.

Meta de eliminação e barreiras

A meta da OMS de eliminar a hepatite C como ameaça à saúde pública até 2030 exige que o Brasil acelere a testagem em pelo menos 300 mil pessoas por ano e trate 90% dos diagnosticados. Dados do Programa Nacional de Hepatites Virais indicam que o país trata cerca de 45 mil pacientes anualmente — número insuficiente para a meta, embora em crescimento.

Barreiras culturais, estigma associado ao uso de drogas e distância geográfica até serviços de referência explicam parte do déficit. Iniciativas de busca ativa em territórios vulneráveis, como as conduzidas por ONGs em parceria com secretarias municipais de saúde no Rio de Janeiro e em Salvador, mostram resultados promissores quando há articulação entre atenção primária e serviços especializados.

O que muda na prática clínica

Para médicos de família e clínicos gerais, a recomendação editorial do Fígado em Foco é clara: manter alto índice de suspeição em pacientes com elevação persistente de transaminases, história de transfusão anterior a 1993 ou exposição a instrumentos compartilhados. O encaminhamento precoce evita progressão para cirrose e reduz a transmissão na comunidade.