A cirrose compensada é definida pela ausência de complicações descompensadoras — ascite, hemorragia varicosa, encefalopatia hepática ou icterícia — em paciente com evidência de doença hepática crônica avançada. No Brasil, as etiologias mais frequentes incluem hepatite C (em declínio após DAAs), doença hepática alcoólica e esteatose com fibrose avançada. O manejo ambulatorial adequado pode retardar ou evitar a transição para descompensação.

Estratificação de risco

O escore MELD-Na e a classificação Child-Pugh continuam como referências para priorização de transplante e prognóstico. Em pacientes compensados com MELD abaixo de 10, o foco desloca-se para vigilância de hipertensão portal e detecção precoce de carcinoma hepatocelular. A elastografia hepática e a contagem de plaquetas auxiliam na identificação de hipertensão portal clinicamente significativa sem necessidade de endoscopia imediata em todos os casos.

Vigilância oncológica e endoscópica

Pacientes com cirrose de qualquer etiologia devem realizar ultrassonografia abdominal semestral associada a dosagem de alfafetoproteína. Nódulos suspeitos exigem protocolo de investigação com tomografia ou ressonância em centros com experiência em lesões hepáticas.

A endoscopia digestiva alta para rastreamento de varizes esofágicas é indicada no diagnóstico de cirrose e, se ausentes, deve ser repetida a cada dois a três anos em pacientes compensados. Varizes de pequeno calibre com sinais de risco (red spots) podem justificar profilaxia primária com betabloqueador não seletivo, disponível no SUS.

Tratamento da causa de base

A abstinência alcoólica permanece como intervenção com maior impacto prognóstico na doença hepática alcoólica. Para hepatite C, a cura virológica não reverte a cirrose estabelecida, mas reduz o risco de descompensação e de carcinoma. Em esteatose com fibrose avançada, a perda de peso de 7% a 10% do peso corporal pode estabilizar ou reverter fibrose em estágios iniciais.

Organização do ambulatório no SUS

Serviços de hepatologia em hospitais universitários e centros de referência enfrentam superlotação crônica. A estratificação por risco permite que pacientes compensados estáveis sejam acompanhados em conjunto com atenção primária, com retorno ao especialista semestral ou anual. Protocolos de fluxo entre UBS e ambulatório especializado — como os implementados em Curitiba e Fortaleza — reduziram faltas e melhoraram a adesão à vigilância oncológica.

Para equipes de saúde da família, os sinais de alerta que exigem encaminhamento urgente incluem ascite de início recente, icterícia, confusão mental, hematêmese e perda ponderal acelerada. O reconhecimento precoce desses sinais é tão importante quanto o seguimento de rotina.

A vacinação contra hepatite B e a profilaxia em contactantes de portadores crônicos permanecem pilares da prevenção de descompensação por reativação viral. Pacientes com cirrose de qualquer etiologia devem ser revacinados ou ter sorologia documentada conforme protocolos do Programa Nacional de Imunizações — orientação frequentemente negligenciada em prontuários de ambulatório geral.